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Avaliação comportamental de peixes indígenas, perante estímulos primários induzidos (Luz estroboscópica, infrasons e cortina de bolhas)

A problemática do aquecimento global e a produção de energia eléctrica através de combustíveis fósseis justifica, aparentemente, a construção de novas e grandes barragens para a produção de energia eléctrica, que utilizam os cursos de água doce como "fonte de energia".

O efeito barreira nesses cursos de água, para as comunidades piscícolas, impõe restrições ao fluxo genético que se verificava a montante e jusante da nova estrutura. As espécies migradoras no período da desova, tentam de forma insistente e primária a progressão para montante do Escalão. Os juvenis experimentam a necessidade intrínseca da descida para jusante.

A concepção de barragens deveria ser acompanhada de sistemas que garantissem quer o movimento natural da Ictiofauna, como escadas para peixes, elevadores, entre outros, quer a sua protecção em relação a algumas estruturas hidráulicas que lhes provocam enorme mortalidade, nomeadamente os canais de turbinamento, bombagem e sistemas adutores. A ausência destes sistemas de sobrevivência põe em causa a biodiversidade das nossas espécies

As barreiras comportamentais para peixes, têm-se revelado em alguns países muito eficientes na redução dos impactes promovidos pelas estruturas hidráulicas típicas das barragens, evitando o seu acesso às turbinas de produção eléctrica, sistemas de bombagem, sistemas adutores, entre outros. A sua eficácia também se verifica quando promove o encaminhamento dos peixes para as PPP (Passagens Para Peixes). Garantem assim, não só, o aumento da eficiência dos sistemas de ligação jusante-montante promovendo o contínuo ecológico, mas também reduzem enormemente a mortalidade e ferimentos provocados pelas "armadilhas" típicas daquelas estruturas.

O insucesso das barreiras de comportamento está normalmente relacionado com o facto de se utilizarem soluções tendo apenas em consideração aspectos puramente físico-químicos negligenciando os aspectos biológicos e comportamentais das espécies piscícolas envolvidas.

Assim, proponho-me investigar o comportamento e a resposta das espécies piscícolas indígenas de água doce a vários estímulos (de repulsão ou de atracção), controlados laboratorialmente, no sentido de colaborar no desenvolvimento de um sistema eficaz de barreira comportamental para peixes, que corresponda em cenário real a uma redução da mortalidade daquelas espécies e consequentemente à sua protecção.

 

2.2 Barreira comportamental para peixes

As barreiras comportamentais para peixes, pretendem através da emissão controlada de determinados estímulos primários, como a luz (no caso luz estroboscópica), ou o som (no caso infra-som), desenvolver nos indivíduos-alvo as reacções desejadas, sejam de atracção ou de repulsão. Estas barreiras não apresentam os inconvenientes próprios das barreiras físicas, como as redes, grelhas, muros ou outros sistemas de retenção, que constituem normalmente obstáculos à circulação normal do curso de água, retiram carga às turbinas de produção hidroeléctrica, além de necessitarem de manutenção frequente e dispendiosa.

O desenvolvimento de tecnologia comportamental, nomeadamente no que diz respeito ao comportamento dos peixes, dirigida à sua protecção em estruturas hidráulicas e outras obras que representam perigos para a sua sobrevivência, não constitui matéria inovadora do ponto de vista de investigação internacional. Nos EUA, Canadá, Bélgica e Brasil, têm sido investigadas, construídas e implementadas com sucesso barreiras comportamentais para peixes utilizando tecnologias como a Luz estroboscópica, as barreiras eléctricas, cortinas de bolhas ou acústicas.

Apesar da crescente vulnerabilidade das nossas espécies piscícolas às alterações verificadas nos cursos de água naturais: rios e ribeiras, quer pela construção de aproveitamentos hidroeléctricos, quer por alterações nos seus leitos, induzidos por extracção de inertes ou construções várias, não existe em Portugal qualquer estudo de carácter científico e de natureza comportamental junto das nossas espécies piscícolas, que permita o desenvolvimento de um equipamento que funcione de forma eficaz como uma barreira comportamental para peixes, que contribua significativamente para a redução da sua mortalidade e consequentemente para a preservação da biodiversidade.

 

3. Natureza do trabalho de investigação e linhas gerais dos métodos de estudo

Os trabalhos de investigação que se pretendem desenvolver, incorporam uma importante componente inovadora, fazendo incidir a investigação no comportamento das espécies-alvo, representativas das espécies presentes nos cursos de água nacional, quer na presença da luz estroboscópica, quer na presença de algumas frequências de natureza acústica. Nesta área de investigação comportamental não existem trabalhos científicos conhecidos em Portugal.

Fases da investigação

Revisão bibliográfica Estudos preliminares Ensaios (1, 2 e 3) Resultados

 

A primeira etapa (ensaios 1) de investigação, realizar-se-á nas instalações laboratoriais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e depois de providenciada a captura dos peixes selvagens. Nesta primeira etapa, os ensaios vão ser realizados em aquários e desenvolvidos com equipamento dimensionado para aquela micro-realidade, que permitirá expor (por espécie) os indivíduos aos estímulos comportamentais que se pretendem estudar. Os aquários de teste, assim como todo o equipamento presente nesta fase, estará preparado para avaliar e registar em vídeo e de forma contínua, todas as sessões e baterias de ensaios que se irão realizar. No final destes ensaios, os resultados comportamentais registados, serão avaliados estatisticamente e definidas as frequências e intensidades dos estímulos induzidos mais adequados a cada espécie presente no estudo, permitindo assim direccionar os ensaios sequentes.

Na segunda etapa (ensaios 2), prescinde-se do controlo de algumas variáveis, como a luminosidade, a temperatura ou o controlo absoluto da movimentação dos indivíduos e os ensaios passam a ser realizados em tanques ao ar livre. A vantagem desta alteração de meio de estudo prende-se essencialmente com a tentativa de estabelecer uma perspectiva mais real dos estímulos induzidos nos indivíduos e consequentemente as suas reacções e sensibilidades. Nesta fase de ensaios utilizam-se, pela primeira vez, comunidades de ensaio mistas (2 ou mais espécies na mesma bateria de ensaios).

Na terceira etapa (ensaios 3), o ensaio é efectuado em cenário real (albufeira ou rio) e com o sistema de barreira comportamental desenvolvido em função dos ensaios anteriores. O sistema de controlo dos indivíduos submetidos ao estudo e que permitirá a avaliação da eficácia de todo o sistema, será efectuado através de um sistema de biotelemetria por método acústico e utilizando uma tecnologia tag implantada num conjunto de indivíduos previamente seleccionados. Será assim possível a avaliação monitorizada do seu comportamento, perante os estímulos emitidos pela barreira comportamental instalada, em cenário real.

Project Details

Status

Concluded

Start date

2010

Duration

24 months

Funding

ADI

Responsible institution

Joaquim de Jesus